Segurando duas listas de material escolar em uma das mãos e uma cesta de compras na outra, a dona de casa Sheila Chaves de Castro fez varredura em uma livraria especializada no Centro da Capital, em busca de mais de 50 itens para os filhos Diandra (12 anos) e Cleberson (11) utilizarem no decorrer da 5ª série do Ensino Fundamental (EF) da escola La Salle Esmeralda. “Estou antecipando as compras porque acredito que os preços vão aumentar mais adiante, quando a procura crescer”, afirma a mãe das crianças, que voltam às aulas em 17 de fevereiro. Com este mesmo pensamento, um volume considerável de pessoas tem movimentado as livrarias de Porto Alegre, a exemplo da diarista Carina da Silva, que já iniciou pesquisa de preços para suprir a demanda dos filhos Rafael (10 anos) e Taila Alice (12 anos), que irão frequentar a 5ª e a 7ª série, respectivamente, da escola Professora Alice de Carvalho, na rede municipal. “Não quero deixar para a última hora”, justifica Carina.
A antecipação de boa parte de mães e pais de crianças com idade escolar ainda é motivada pela ocorrência de jogos da Copa do Mundo na Capital. Em função dos feriados vinculados ao Mundial, as escolas alteraram seus calendários, antecipando a volta às aulas tanto nas redes estadual e municipal – que se iniciam no dia 24 de fevereiro –, quanto em instituições de ensino particulares, com previsão de retorno entre os dias 18 e 20 de fevereiro. Em Alvorada não foi diferente. A escola particular Salvador Jesus Cristo, por exemplo, marcou o início do ano letivo para o dia 18 de fevereiro. É lá que estuda Leonardo (7 anos), filho da executiva de vendas Cláudia Regina da Silva Bandeira. Mesmo em férias, ambos levantaram cedo na quarta-feira passada para ir ao Centro de Porto Alegre em busca do material definido como obrigatório para a 2ª série do Ensino Fundamental. “Neste ano, as aulas do Leonardo irão começar 20 dias antes do normal”, comenta a mãe. “Além disso, sai mais barato comprar com antecedência, e ainda se evita aquele aglomerado de pessoas, comum em fevereiro”, completa a executiva.
O gerente de loja da rede Casa do Papel, Sandro Zambarda, confirma a tese de Cláudia: “Uma semana antes do retorno de estudantes às escolas, lá por 13 de fevereiro, o movimento é intenso, a ponto de não se conseguir entrar nos recintos.” E, depois que começa, o alto fluxo de consumidores em busca de material escolar se estende até o final do mês, independentemente de as aulas terem iniciado, garante o gerente. “É uma loucura. São duas semanas intensas de vendas. Por isso contratamos 12 profissionais temporários (somando com outros cinco fixos, serão 17 no total), só para atender nos caixas durante o período.”
Desde o dia 7 de janeiro, em somente uma das seis filiais da Livraria Cervo já foram vendidas dezenas de listas de material escolar. “Os pais estão querendo economizar, e estão certos, porque, com a alta do dólar, provavelmente muitos produtos importados terão os preços reajustados em fevereiro”, comenta o proprietário da empresa, Cláudio Cervo. A variação do câmbio pode afetar toda a linha de escrita (lápis, canetas e lapiseiras), grampeadores, grampos, compassos, tesouras, borrachas, estojos e mochilas, sinaliza o empresário. Cervo relata ainda que muitos consumidores se antecipam para aproveitarem as férias de verão com a garantia de que, quando voltarem para a cidade, estarão com “tudo pronto” para enviar os filhos para a escola.
Para evitar a correria de última hora, Zambarda recomenda que os pais que permanecerem na cidade no mês de janeiro aproveitem a tranquilidade do período. “Com a Copa tendo alterado o calendário escolar, provavelmente o movimento da terceira semana de fevereiro deva ser ainda mais intenso do que o de anos anteriores”, aposta o gerente de loja.
EFEITO MUNDIAL JÁ CHEGA ÀS PRATELEIRAS DOS VAREJISTAS
Mesmo que a ocorrência a Copa do Mundo não tenha interferido significativamente no processo de compras das varejistas junto à indústria, houve empresa preocupada em antecipar os pedidos. Foi o caso da Livraria Saraiva, uma das maiores redes especializadas em material escolar, com mais de 3 mil itens de papelaria (cadernos, lápis, canetas, borrachas, colas, apontadores, entre outros) e um extenso catálogo de livros didáticos e paradidáticos.
Segundo o diretor de operações da rede, Pierre Berenstein, é costume na empresa trabalhar exclusivamente neste período para “oferecer o maior acervo e a melhor experiência aos clientes”, mantendo uma frente responsável pelo cadastro das listas completas de material escolar. “A Saraiva sempre se prepara com antecedência para o período de volta às aulas. Porém, como o calendário de 2014 foi adiantado, houve também uma aceleração dos pedidos aos fornecedores para o timing ser atendido”, diz o executivo. De acordo com Berenstein, as vendas já começaram e estão dentro das expectativas.
“Costumeiramente, encomendamos com muita antecedência as compras de material escolar – no mínimo, dez meses antes do período de vendas”, declara o gerente de loja da Casa do Papel, Sandro Zambarda. Com a loja totalmente abastecida, ele ilustra que mais de 4 mil itens, de um total de 9 mil, são da linha escolar. “Temos muita variedade, com diversas marcas nacionais, algumas importadas, e este ano aumentamos o mix de licenciados, para acompanhar os lançamentos com preços que cabem em todos os bolsos.”
Entre as opções disponíveis ao consumidor, a Feira de Material Escolar, promovida pela Prefeitura de Porto Alegre, ocorrerá de 24 de janeiro a 3 de março no estacionamento dos funcionários do Pop Center. Serão 5 mil produtos com até 50% de desconto. Segundo o secretário Municipal da Indústria e Comércio, Humberto Goulart, a realização do evento deve “balizar” os preços das livrarias do entorno. A expectativa é de que sejam vendidos R$ 2 milhões e que mais de 97 mil pessoas circulem no local durante o período.
INDÚSTRIA PREPARA REPOSIÇÕES PARA ATENDER À DEMANDA
Para que os lojistas pudessem compor as prateleiras com itens destinados à volta às aulas já nos primeiros dias de 2014, toda a indústria trabalhou com a antecipação da produção, afirma a diretora de Marketing da Foroni, Marici Foroni. A fabricante de cadernos universitários, brochuras, caligrafia, fichários, agendas e mochilas, por exemplo, iniciou em setembro do ano passado as entregas de pedidos do varejo para o período de maior número de vendas de material escolar. “Agora estamos entregando as reposições”, comenta Marici. A gestora comenta que a influência da Copa foi além da alteração dos prazos de trabalho.
Este ano, a Foroni produziu milhares de itens com licenças exclusivas da Copa do Mundo e ainda precisou realizar a conscientização de clientes na busca de um abastecimento mais completo e forte nos depósitos e lojas. Conforme a diretora, o trabalho de antecipação se assemelha aos anos em que o Carnaval ocorreu na primeira semana de fevereiro. “O ponto crítico será com o canal indireto, que terá que trabalhar duro na conscientização da sua carteira de clientes, visando adiantar a programação de compra e muito mais em não contar com uma velocidade de abastecimento na terceira semana. Caso contrário, será um caos, e poderá faltar mercadoria, gerando um grande desconforto aos consumidores que precisarão buscar opções em locais que estejam mais preparados para o evento”, avalia.
Fonte: Site Jornal do Comércio