O sociólogo Eduardo Biavati avalia que, nos três primeiros anos desta Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito, o Brasil não conseguiu colher os frutos das ações devido à falta de investimentos. De acordo com ele, o orçamento precisa ter fluxo contratante para que se consiga investir na fiscalização e nas ações educativas. O sociólogo, que defende a redução da velocidade nas vias, palestrou nesta quinta-feira, na Capital, durante a 2ª Conferência Estadual de Política de Segurança no Trânsito, realizada na Assembleia Legislativa. Segundo Biavati, que já foi consultor do Departamento Estadual de Trânsito (Detran/RS), ainda são registradas 2 mil mortes no trânsito por ano no Estado e 45 mil no País.
Jornal do Comércio – O senhor acredita que as políticas públicas criadas no País para a segurança no trânsito estão no caminho certo?
Eduardo Biavati – Houve avanços, mas o que ainda não conseguimos fazer em nível nacional foi garantir um fluxo de orçamento para a segurança viária. Os países que conseguiram reduzir a mortalidade investiram muito dinheiro e por muitos anos. Estamos nos aproximando do momento em que os governos vão saber o que fazer, mas precisarão de uma fonte de financiamento de longa duração. Nestes três primeiros anos da Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito, não fomos ainda capazes de transformar a questão. Ainda são os jovens, os motociclistas e os homens os que mais morrem. O perfil da tragédia sequer foi arranhado. No Brasil, o número de óbitos cada vez aumenta mais.
JC – E sua avaliação sobre o Estado?
Biavati – No Rio Grande do Sul, a política estadual de trânsito se destaca do panorama nacional porque, há pelo menos três anos, as áreas envolvidas nessa questão, como as da saúde e da educação, vêm tendo boa integração e coordenação. Nestes três primeiros anos, já demos um passo além ao entender que a questão não envolve apenas uma área. Quanto mais multissetorial melhor. No Estado, foram conseguidas pequenas reduções nos óbitos, mas ainda não dá para dizer que ganhamos a batalha, pois ainda morrem 2 mil pessoas por ano no trânsito. No Brasil, são quase 45 mil mortes por ano. Ainda não fomos capazes de colher os frutos das ações porque faltam recursos humanos, dinheiro, radares nas rodovias etc.
JC – O senhor acredita que a fiscalização precisa ser mais intensa?
Biavati – Sim. A fiscalização deveria ser constante durante o dia e a noite. O risco não surge só na madrugada e nos fins de semana. Para melhorar isso, é preciso ter mais equipes, viaturas e bafômetros. No ano que vem, o Departamento Estadual de Trânsito (Detran/RS) começará a fiscalizar o consumo de outras drogas e, para isso, é preciso comprar equipamentos caros.
JC - A arrecadação com as multas e os encargos dos motoristas não é suficiente?
Biavati – Em nenhum lugar do País essa arrecadação cobre os gastos da fiscalização e das ações educativas. No geral, o Brasil alcançou o teto, e não conseguimos mais avançar. Mesmo no Rio de Janeiro, onde a fiscalização é mais ampla, não tem como avançar. Isso por causa da falta de recursos e de pessoal. Somente o policial militar pode fazer a fiscalização do consumo de álcool. Isso por lei. Como os contingentes são limitados e não se faz concurso para contratar, faltam profissionais para esse controle. Para mudar o panorama das mortes, é preciso investir.
JC – Na Capital, existe uma discussão sobre a possibilidade de redução da velocidade máxima permitida nas vias. O senhor acha que essa seria uma solução para a diminuição dos acidentes e mortes?
Biavati – Sem dúvida. A questão da velocidade é decisiva. Não conseguiremos colocar ciclistas e pedestres em segurança se não reduzirmos a velocidade das vias. Isso foi feito em toda a Europa. As pessoas reclamam, mas a verdade é que não tem outro jeito.
Fonte: Site Jornal do Comércio