Estudos pretendem estabelecer uma classificação mais exata das divisões entre as camadas sociais brasileiras. A pesquisa mais recente e vista por muitos como definitiva na classificação da população em classe de renda é a Vozes da Classe Média, elaborada pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE). A fim de definir o que é e quais são as necessidades da classe dita em ascensão, o órgão realizou um estudo com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) em 2009, e definiu as faixas de renda de cada uma das classes levando em conta a realidade econômica brasileira. O assunto gera dúvidas na população em geral, inclusive entre os órgãos de pesquisa. Quando questionados, os principais institutos de pesquisa brasileiros, como o IBGE, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), afirmaram não realizar uma divisão por faixas de renda, mas informar os dados com base nas diversas faixas de rendimento sem enquadrá-los em classes. Entretanto, ambos indicam a classificação da SAE como a mais correta no que diz respeito a esse tipo de serviço. Sendo assim, de acordo com a definição da SAE, a classe média é aquela com renda familiar per capita mensal (ponto de corte) entre R$ 291,00 e R$ 1.019,00, a classe baixa, entre R$ 81,00 e R$ 291,00, e a classe alta, aquela com renda per capita mensal acima de R$ 1.019. Parece um número muito díspar, mas a diretora de programas da secretaria, Diana Grosner, defende que a pesquisa consegue mostrar bem a renda média da classe em ascensão. Segundo Diana, o critério adotado para a divisão, de Vulnerabilidade à Pobreza – reconhecido pelo Banco Mundial – foi posto à prova pela pasta. Mesmo com a aplicação de outros conceitos, como o de acesso da população a bens essenciais e supérfluos, a faixa de renda per capita sempre ficou entre R$ 300,00 e R$ 1 mil, o que comprova que a classe média brasileira pode sim ser entendida como os sujeitos com renda mensal em torno desse valor. O critério escolhido leva em conta a probabilidade de uma pessoa cair abaixo da linha de pobreza dada a sua renda. “A vulnerabilidade é o que dá mais a ideia de uma troca de estratégia de sobrevivência para uma estratégia de vida, por isso a escolhemos. Além disso, ela se mostrou eficaz, já que olhando para outros indicadores nós teríamos resultados parecidos”, defende Diana. Outra pesquisa amplamente utilizada é a Critério de Classificação Econômica do Brasil (CCEB), elaborada pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (ABEP). Utilizada por órgãos como, por exemplo, o Ibope e a Datafolha, a pesquisa é feita com base nos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) também do IBGE e busca estimar o poder de compra das pessoas e famílias urbanas, dividindo-as nas classes A, B1, B2, C1, C2, D, E. Considerada mais completa para as empresas interessadas em desenvolver uma estratégia de marketing, a CCEB leva em consideração a posse de produtos. O líder do comitê de elaboração da pesquisa, Luis Pilli, sustenta que é graças a essa preocupação em segmentar o nível econômico através de indicadores indiretos, como eletrodomésticos, televisores e escolaridade, e não pela renda declarada que a pesquisa ganhou confiança. “No entanto, a escolha pela pesquisa utilizada depende de cada instituição, ainda mais agora que tanto a pesquisa da SAE quanto da ABEP têm informações tão parecidas”, enfatiza Pilli. O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, conta que “sempre que o instituto precisa ilustrar alguma pesquisa é utilizada a classificação do Critério Brasil, principalmente porque as pessoas entendem os dados”, diz Paulino. Além disso, o diretor lembra que o comitê de elaboração é formado por membros de institutos como Ibope e Datafolha, garantindo a credibilidade da pesquisa. De acordo com a Critério Brasil, integram as classes D e E as famílias com renda média mensal de R$ 776,00; a classe C2, aqueles com renda média de R$ 1.147,00; C1, os que têm renda de cerca de R$ 1.685,00; B2, indivíduos com renda mensal familiar de R$ 2.654,00; B1, renda de 5.241,00; e da classe A, aqueles com renda mensal média de R$ 9.263,00. A pesquisa faz uma média da renda familiar mensal, também tendo como base a constituição familiar de quatro membros. Sendo assim, a renda média per capita estabelecida é semelhante à da SAE. Ao considerar, por exemplo, que a renda per capita média de um indivíduo da classe C2 corresponde à Baixa Classe Média, nota-se que ambos apresentam uma renda de cerca de R$ 300,00. INFORMAÇÕES AINDA PRECISAM SER APERFEIÇOADAS Os critérios adotados nas pesquisas ainda geram divergências entre os economistas, afirma o consultor de finanças pessoais e professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) Alfredo Meneghetti, que julga a POF a pesquisa mais importante e completa de levantamento dos gastos dos brasileiros e da qualidade de vida. Conforme Meneghetti, “sem dúvida a maioria das classificações são muito rasas por levar em consideração apenas dados como renda mensal ou propriedades”. Entretanto, o economista admite que elas já melhoraram e a tendência é que evoluam ainda mais ao longo dos anos, passando a olhar para as pessoas com critérios mais específicos. “Realmente é difícil dizer que um idoso que ganhe o mesmo que um jovem pode estar incluído na mesma classe. Um idoso, por exemplo, gasta mais com remédios.” A diretora de programas da SAE admite que a pesquisa tenha deficiências. “Sabemos que o poder de compra e o nível de renda não são os mesmos considerando pessoas de diferentes faixas etárias e localidades. No entanto, quando estamos falando da faixa entre R$291 e R$1.019, estamos falando da classe média brasileira considerando a renda do conjunto de brasileiros”. CLASSE MÉDIA AINDA É A QUE GERA MAIS DÚVIDAS NA DIVISÃO A demanda por uma identificação clara das classes baixa, média e alta surgiu exatamente pela necessidade de entender o que é a classe em ascensão. Segundo Diana Grosner, o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Moreira Franco, percebeu o surgimento desse estrato e “notou que o governo dava muito atenção aos pobres e esquecia muitas vezes dessas pessoas que estão emergindo e não precisam tanto de programas de transferências de renda, mas necessitam ainda de muita atenção pra garantir a permanência nesse processo de ascensão.” O economista Alfredo Meneghetti defende que a classe média deveria ser aquela com renda mensal per capital de R$ 1,5 mil. No entanto, admite que a realidade brasileira já melhorou muito. “A classe média envolve quase 100 milhões de brasileiros, sendo que há 20 anos esse número chegava a apenas 40 milhões.” Além disso, para Meneghetti, o Coeficiente de Gini – que mede a distribuição de renda de um país - demonstra exatamente essa melhoria de vida no País, já que o Brasil tem um índice em torno de 0,6, “o que pode ser considerado muito bom se compararmos com os de outros países emergentes”, finaliza. Fonte: Site Jornal do Comércio