Ir até uma livraria, examinar variados títulos e diferentes capas e, entre todas as opções, escolher o livro que mais agrada pode ser uma tarefa fácil. No entanto, o caminho que a obra trilhou para chegar até ali, às mãos do leitor, é bastante complexo e, por vezes, tortuoso.
O romantismo que envolve o setor já começa pela ideia normalmente relacionada à profissão de editor literário. À primeira vista, ela parece bastante glamourosa: traz à mente a imagem de um erudito, inteligente e letrado, que passa seus dias lendo originais e manuscritos em busca de um novo sucesso. Essa, no entanto, é apenas uma das funções de um profissional que deseja atuar na área. Aprender a trabalhar com fornecedores, parceiros e colaboradores, avaliar oportunidades e custos e saber lidar com problemas e decepções faz parte da rotina mesmo de quem tem os livros como objeto de trabalho.
Jornalista de formação, Tito Montenegro já está há cerca de sete anos neste mercado, à frente da Arquipélago Editorial. Para ele, um editor deve ser, antes de tudo, um bom administrador. “A gente tende a romantizar muito o trabalho relacionado aos livros, mas ele possui suas complicações específicas e gerais, como acontece em todos os mercados”, alerta.
Entre os principais desafios apontados pelo empresário está o cultural: o hábito de leitura ainda é muito pequeno entre a população. Segundo pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato dos Editores de Livros (SNEL), as vendas de livros no País encolheram 7,36% em 2012. Ao todo, foram comercializados 434,92 milhões de exemplares no ano passado, dos quais 166,35 milhões de livros do setor didático, para o governo. Entre as razões do baixo índice de leitores no Brasil, Montenegro destaca os baixos salários do País. “A média de renda da população aumentou muito nos últimos anos, mas ainda é muito inferior em comparação com países ocidentais mais desenvolvidos”, afirma.
Ainda assim, as editoras brasileiras registraram alta de 3,04% em seu faturamento em relação a 2011, alcançando R$ 4,98 bilhões. Conforme a CBL, tal diferença entre os números de receita e as vendas do setor pode ser explicada pelo acréscimo de 12,46% no preço médio do livro vendido pelas editoras ao mercado em 2012.
LOGÍSTICA É UM PROBLEMA PARA EMPRESÁRIOS DO ESTADO
Além da falta geral de interesse do brasileiro pelos livros, ainda há, para as pequenas editoras do Rio Grande do Sul, o problema de concentração do mercado. “É necessário lidar com o fato de que um percentual muito alto dos livros lançados e vendidos é de grandes editoras. No entanto, o desafio principal está na outra ponta: apenas cinco ou seis redes dominam todo o mercado varejista”, analisa Montenegro, da Arquipélago.
Conforme o editor, a distribuição de obras para tais redes – que têm como representantes nomes de peso como Saraiva, Fnac e Livraria Cultura – ainda dá dor de cabeça para quem busca atuar neste mercado. “Deve-se estar sempre estimulando a demanda pelos livros com os quais se trabalha”, aconselha, “pois as redes de livrarias trabalham muito baseadas na pressão do consumidor. Se o cliente for à livraria e pedir o título, o livreiro vai buscá-lo junto às editoras”.
“Por outro lado, vivemos um tempo em que já é possível sobreviver sem essas grandes redes ou os mercados tradicionais”, afirma, referindo-se ao avanço do livro digital em todo o mundo e ao comércio eletrônico. “Hoje se pode entregar produtos, via Correios ou uma transportadora, para qualquer lugar do Brasil. Essa possibilidade vem compensar o aumento da concentração de mercado, facilitando não apenas a área de vendas, mas a de divulgação”, explica.
Para o escritor e editor da 8inverso, Cássio Pantaleoni, a logística envolvida no trabalho feito longe do “centro” do País também deve ser considerada. A empresa gaúcha, que desde 2009 se dedica a publicar literatura adulta, infantil, pesquisa histórica e graphic novels, tem 70% de seu mercado consumidor situado nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. “Temos um custo grande para superar esse desafio geográfico”, diz.
A grande quantidade de editoras atuantes também é destacada por Pantaleoni, que aponta sua relação com as livrarias dominantes no mercado do Brasil. “Atualmente, há muita gente publicando uma grande variedade de coisas. Ainda assim, as grandes redes varejistas não têm uma pauta interessada diretamente em editoras pequenas”, afirma, ao comentar as dificuldades por que passam as pequenas editoras no Estado. “Com exceção da L&PM, que atualmente teve seu operacional transferido para São Paulo, as pequenas editoras no Rio Grande do Sul são bastante voltadas a escritores locais. Embora o País consiga absorver alguns autores gaúchos, é o mercado local quem consome mais facilmente”, diz.
Quando aborda as dificuldades de distribuição no setor, Clô Barcellos, editora da gaúcha Libretos, afirma que não é apenas o setor editorial que sofre. Segundo ela, as próprias distribuidoras e os livreiros também enfrentam obstáculos. “Se a editora não tem uma estrutura própria para trabalhar a distribuição, não consegue a visibilidade necessária para sobreviver no Estado”, avalia. No âmbito mais amplo, aponta, é necessário provar que os títulos são “nacionais”, que têm relevância para um público mais ampliado.
“Para se alcançar o mercado maior, devem-se buscar pontos que diferenciem seu trabalho do trabalho dos outros: qualidade, ineditismo, uma boa edição, enfim, tudo para obter visibilidade e cair no gosto de uma distribuição nacional”, aconselha Clô. E mesmo quando alcança essa distribuição, o trabalho ainda não está finalizado: a editora precisar estar em constante contato com as livrarias, “vender” mais uma vez suas obras, refazendo um trabalho de distribuição.
Para a dirigente da Libretos, a dificuldade maior do setor não está em criar uma nova editora, mas em manter as que existem operando. “Não existem barreiras de entrada para o mercado editorial. O que é mais complexo é a manutenção no mercado, pois isso leva tempo, o retorno não é imediato”, explica. A cada título lançado é necessária uma nova divulgação, feita de forma focada e específica, além de contato constante com editores e livrarias. “É um trabalho complexo e custoso”, diz.
Ela aponta ainda o que vê como uma tendência do setor editorial: o fim de contratos terceirizados com distribuidores e a formação de núcleos de distribuição dentro da própria empresa. “Isso acontece em razão de resultados. O custo da editora aumenta, em razão do número maior de funcionários, mas vale a pena uma editora conseguir falar diretamente com uma livraria ou com uma distribuidora nacional”, analisa.
AMBIENTE DIGITAL É ALTERNATIVA PARA OS PEQUENOS MANTEREM OS NEGÓCIOS
As dificuldades de distribuição também são apontadas por Rafael Trombetta, editor da Buqui Livros Digitais e curador do Festival Internacional da Leitura Digital. Ele avalia que o planejamento estratégico é fundamental para que as editoras possam fazer o produto cultural chegar a seu público-alvo. Sua empresa, que trabalha com autopublicação e foca principalmente sua livraria digital – com um acervo de milhares de diferentes títulos que podem ser lidos em tablets, smartphones ou no computador –, consegue driblar as complicações da distribuição, levando seus produtos diretamente aos grandes canais de livros digitais, como Amazon, Apple e Google.
“Mesmo com essa facilidade, o ambiente digital exige um know-how muito forte para que seja possível distribuir produtos com qualidade. O editor que trabalha nesta área deve ter um conhecimento técnico, teórico e até mesmo empírico. O planejamento estratégico é fundamental”, destaca. Para Trombetta, os últimos anos vêm trazendo para o setor editorial uma mudança de paradigmas em razão das novas tecnologias, o que provoca também uma mudança de estratégias. “Há uma grande e nova possibilidade em termo de nichos com os quais é possível trabalhar”, afirma.
O papel do livro digital, então, passa a ser mais do que apenas uma solução para problemas de distribuição. “O livro digital é uma porta, um excelente instrumento para potencializar o nome de um autor que está começando. Com ele, é possível pulverizar o conteúdo, gerar muito tráfego”, destaca Trombetta.
Com tantas possibilidades de exploração, o e-book, apesar de ainda engatinhar no mercado – em razão da adesão ainda pequena dos brasileiros a plataformas como tablets ou e-readers –, vem ganhando espaço. Estimativas recentes da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) dão conta de cerca de 227 mil e-books vendidos no Brasil em 2012 e mais de 8 mil apps relacionadas ao serviço da leitura digital, o que representa um faturamento de mais de R$ 3,8 milhões para as empresas atuantes na área.
Mesmo assim, o setor ainda está longe de fazer frente aos livros impressos. As livrarias continuam sendo, atualmente, o principal canal de comercialização do setor editorial no Brasil, com 47,42% do total dos livros vendidos ao mercado (ou 127,35 milhões de exemplares) em 2012. Pantaleoni, da 8inverso, afirma que e-books têm um papel utilitarista, buscando, acima de tudo, a praticidade. “No entanto, o mercado de livros no papel vai continuar para quem cultua o livro, que busca uma edição de qualidade, que tem um vínculo com o objeto físico”, aponta, afirmando ser um apaixonado por livros em papel.
Tal diferença deixa claro que, apesar de todas as dificuldades que o mercado editorial tem no seu caminho, as tecnologias digitais - que facilitam a distribuição - e o gosto pelos livros evidenciado por todos os envolvidos no setor dão sempre um novo fôlego ao sonho de quem quer trabalhar com livros, mantendo novas obras e talentosos autores iniciantes sempre chegando às prateleiras.
Fonte: Site Jornal do Comércio