A transição demográfica e a nova composição de renda foram responsáveis por mudanças de comportamento do consumidor brasileiro. Hoje, a maior parte da população se encontra na faixa entre 30 e 64 anos, considerada a de maior capacidade de geração de riquezas. Ao mesmo tempo, houve a queda de natalidade no Brasil, onde o número médio de filhos de uma família caiu de seis nos anos 1950 para menos de dois nos dias atuais. Com isso, até 2030, haverá uma menor parte da população na faixa de maior geração de riquezas. A projeção é do economista Eduardo Gianeti, que participou ontem em Brasília do Conseguro, evento promovido pela Confederação Nacional de Seguradores (CNSeg). “Esta pirâmide etária vai virar um cogumelo. Para superar isso, precisaremos aumentar a nossa produtividade para sermos capazes de manter a geração de renda”, estima.
Sobre a ótica da composição de renda, o economista lembrou que mais de 35 milhões de brasileiros acessaram nos últimos anos a nova classe média. E citou estudos que mostravam que, no início do século XX, 80% da renda das famílias médias de países desenvolvidos era destinada para alimentação, vestuário e moradia. Atualmente, esse comprometimento não ultrapassa 30%, sendo substituído por educação, saúde e entretenimento. Gianetti acredita que essa parcela da população brasileira ainda está em uma fase de deslumbramento, gerando grande consumo de supérfluos, como cosméticos e artigos para animais de estimação. “Em um primeiro momento, temos demandas reprimidas por gerações que criam esse efeito de consumo, mas essa classe média terá uma passagem futura para um consumo de necessidades mais importantes”, avalia o economista.
Também presente no debate, a secretária da Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça, Juliana Pereira da Silva, falou sobre os avanços das políticas públicas voltadas à defesa do consumidor. Ela lembrou que, mesmo após a regulamentação de leis nesse sentido, a partir do início dos anos 1990, houve resistência em relação ao tema, não só dos empresários como da sociedade. Hoje, conforme a secretária, o objetivo das políticas é de não só defender o consumidor no momento de uma reclamação, mas sim de gerar produtos e serviços de qualidade para o público. “É preciso que se priorize qualidade, preço, inovação e atendimento”, acredita.
Falando ao mercado, Juliana salienta que é preciso que as empresas trabalhem de forma mais direta a relação com o consumidor. Atualmente, segundo a secretária, existem cerca de 9 milhões de reclamações contra empresas registradas no banco de dados do Ministério da Justiça e a cada dez reclamações, em nove foram tentados contatos iniciais com as empresas. Ela avaliou também a mudança do consumidor em relação à informação. Para ela, há uma diminuição do efeito publicitário diante do maior poder de escolha do consumidor que, diante de experiências ruins, tem tido reações negativas e não teme por difundir o problema causado pelo produto ou serviço.
REDES SOCIAIS TRABALHAM PARA MUDAR RELAÇÃO EMPRESAS-CLIENTES
O mercado econômico também vive uma transformação por causa do advento das redes sociais e do compartilhamento colaborativo da informação. A afirmação é do professor da Universidade de São Paulo (USP) Massimo Di Felice, que falou sobre essa transformação durante o Conseguro.
O especialista afirma que hoje há uma nova forma de economia com base no coletivismo. Cita como exemplo o conceito de crowfunding, financiamento coletivo para obtenção de capitais como forma de agregar múltiplas fontes de recursos.
Além disso, Di Felice afirma também que a reputação hoje é o capital mais valioso das empresas. “E essa reputação não é mais gerada pelas próprias empresas. É construída pelas trocas coletivas sobre o que dizem sobre elas”, salienta.
Fonte: Site Jornal do Comércio