Os superendividados são alvo da preocupação crescente de entidades de defesa do consumidor, Justiça e até dos bancos e gerenciadores de crédito. Reunião na quinta-feira (11), em Porto Alegre, entre Fórum Latino-Americano de Defesa do Consumidor (FEDC) e Procon-RS abordou medidas que reduzam o contingente de pessoas com débitos acima da capacidade de renda, uma das razões que definem os superendividados. Os participantes apontaram que a expansão de crédito nos anos recentes exigirá maior educação financeira. O presidente do fórum, Alcebíades Santini, não descarta adoção de condutas para frear os litígios entre endividados e o setor de crédito.
O Cadastro Positivo, que é apontado como um mecanismo para reduzir custos dos financiamentos a quem paga em dia suas contas, não decolou no País. Segundo o superintendente da Serasa Experian, Vander Nagata, apenas 1 milhão de pessoas está nos registros, que exigem consentimento do consumidor. Nagata defendeu que o cadastro é ferramenta para combater o superendividamento. “Mas isso não chegou às pessoas, que em sua maioria não entende que é bom. Há fantasmas e preocupações com a medida”, lamenta Nagata.
O presidente do Conselho Estadual de Defesa do Consumidor e defensor público, Felipe Kirchner, citou que cada vez mais atende casos de superendividados passivos, 80% dos pedidos para buscar na Justiça renegociação de débitos. Perda de emprego e outros problemas que afetam a renda e o estado emocional das famílias geram esse quadro. “Isso reflete uma deficiência econômica estrutural e vira problema social”, adverte Kirchner, que associou entre causas também a oferta que explodiu de crédito ao consumidor.
O juiz da 15ª Vara Cível da Capital e especializada em conflitos com o consumidor Roberto Ludwig alertou que a alta demanda de ações onera o Judiciário e exigirá elaboração de ações coletivas. O presidente da Associação de Bancos do Estado e do Banrisul, Túlio Zamin, lembrou que a expansão de crédito, que alcança 56% do PIB (47% tomado por pessoa física), foi de 70% desde 2009 e que houve certa estabilização e leve queda do comprometimento da renda desde 2012. Zamin defendeu que se intensifique a educação entre tomadores, mas citou que há crédito no varejo com dois dígitos de juros ao mês.
COMÉRCIO DEVE FECHAR O ANO COM PIOR RESULTADO DESDE 2003
Em um momento de incertezas em relação à economia, os consumidores brasileiros estão menos dispostos a gastar, o que compromete o desempenho do comércio neste ano.
O setor, mantido o atual ritmo, deve fechar o ano com o pior resultado desde 2003, quando as vendas caíram 3,7%.Pelos cálculos de economistas, o varejo tende a crescer 4% neste ano, abaixo dos 4,5% de 2013. De janeiro a julho, as vendas subiram 3,5%. Em 12 meses, acumulam alta de 4,3%.
O mais fraco dinamismo do setor está ligado à piora da confiança dos consumidores, à escassez do crédito, aos juros mais elevados e à inflação ainda em patamar alto - embora tenha cedido nos últimos meses. Para Aleciana Gusmão, técnica do IBGE, a Copa do Mundo afetou o setor tanto em junho como em julho — quando as vendas caíram 0,7% e 1,1%, respectivamente. Isso porque os feriados e dispensas antecipadas em dias de jogos prejudicaram o setor. Segundo Aleciana, o crédito mais fraco também abateu o varejo. Um dos sinais é a retração das vendas de móveis e eletrodomésticos de junho para julho — de 4,1%, a mais intensa dentre as categorias pesquisadas. “O ano de 2014 tem se mostrado menos favorável para o comércio”, disse a técnica
do IBGE.
Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco, ressalta que “o desempenho do comércio reforça a expectativa de desaceleração gradual do consumo ao longo de 2014.” Nos últimos dados do PIB, tal tendência de moderação do consumo já estava presente e tende a ganhar força após esse fraco resultado do comércio em julho.
O Bradesco diz, porém, que a queda do varejo “não foi generalizada”, com destaque especialmente para o setor de supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-1,3% de junho para julho) e de móveis e eletrodomésticos (-4,1%). O resultado de julho do comércio veio, porém, pior do que as projeções mais pessimistas, que indicavam um recuo na faixa de 0,5%. O Bradesco previa uma alta de 1,1%.
Apesar de sinais de piora do crédito, as vendas de veículos subiram 4,3% e reagiram, após dois meses em queda. “Isso é resultado de promoções que o setor fez para desovar estoques”, disse Gusmão. O dado compõe o chamado comércio varejista ampliado, que inclui setores cujas vendas também são destinadas ao atacado. O índice também inclui o comércio de materiais de construção, que teve alta de 3,8% no mês de julho. Impulsionadas pelos resultados positivos destas atividades, as vendas no varejo ampliado subiram
0,8% no mês.
Fonte: Site Jornal do Comércio