Um em cada quatro brasileiros tem algum tipo de deficiência. Para ser mais preciso, segundo o último censo do IBGE, realizado em 2010, 23,9% do País - o equivalente a 45,6 milhões de pessoas - possui ao menos uma limitação motora, mental, auditiva ou visual. Embora representem parte considerável da população, a inserção desse público no mercado de trabalho continua dificultada por falta de qualificação, motivação e preconceito, segundo entidades. Ainda assim, graças à legislação de reserva de vagas e à mudança de mentalidade em algumas empresas, o número de pessoas com deficiência (PCDs) empregadas cresce a cada ano, mesmo que de forma lenta.
De acordo com a última Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego, havia, em 2013, 357.797 vagas ocupadas por PCDs no Brasil, sendo 27.876 delas no Rio Grande do Sul. Os números representam leve melhora em relação aos anos anteriores (330.296 vagas em 2012, 325.291 em 2011 e 306.103 em 2010, no Brasil; 25.470 em 2012, 23.644 em 2011 e 21.629 em 2010, no Estado). A tendência é percebida também na Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (Fgtas), responsável pelas agências do Sistema Nacional do Emprego (Sine) no Rio Grande do Sul. Nelas, o número de vagas exclusivas para PCDs cresceu de 4.855 em 2011 para 6.941 em 2013, e, até o fim de agosto, já haviam sido abertas outras 5.220 em 2014.
Para o diretor-presidente da Fgtas, Rodrigo Waltrick Ribas, o aumento é reflexo de esforços da sensibilização realizada junto ao empresariado. “Hoje, podemos dizer que a pessoa que tem alguma deficiência, e quer trabalhar, consegue emprego”, afirma. Entretanto, Ribas também ressalta o fato de que grande parte dessas vagas ainda refere-se a posições de formação inicial, com salários mais baixos e sem oportunidade de progressão.
A situação frearia a procura pelas vagas, já que 1,9 milhão de brasileiros com deficiência têm direito a um benefício de prestação continuada de um salário-mínimo caso não consiga prover seu sustento. “Muitas vezes, as pessoas se sentem inseguras de largar o benefício por acharem que o perderão, mas, na verdade, ele só é suspenso, ou seja, caso a PCD saia da empresa, volta a recebê-lo”, esclarece Ribas.
EMPRESAS ESTÃO MAIS ABERTASS PARA RECEBER PCDs
A postura compreensiva das empresas é determinante para a inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Foi o que aconteceu com Régis Selzlein da Silva, hoje supervisor nacional de vendas das Empresas Artecola, com sede em Campo Bom. Após perder a perna esquerda em um acidente de trânsito em 2006, que lhe afastara do mercado formal de trabalho, o supervisor chegou à empresa graças a uma vaga para o setor de produção, em 2008.
“Quando descobri o setor, na entrevista, expliquei que era complicado ter de ficar sempre de pé, e que eu tinha experiência em informática, vendas e administração”, conta ele, que, em vez de ser dispensado, acabou realocado para a área de atendimento ao cliente, que até então contava apenas com mulheres.
Desde então, Silva foi subindo de posição na companhia até chegar ao seu cargo atual, em 2013. O supervisor também conta que desde que sofreu o acidente nunca colocou no currículo a sua deficiência, apostando apenas em suas qualidades pessoais. “Querendo ou não, há um preconceito, mesmo que seja visual, sem querer. Às vezes, as pessoas acham que, por não ter uma perna, a gente não consegue fazer, mas não tem nada a ver”, complementa.
AMBIENTE CORPORATIVO PRECISA SER ADAPTADO
Sancionada em 1991, a Lei Federal 8213 traz, em seu artigo 93, a obrigatoriedade de que empresas com 100 ou mais empregados preencham cotas de seus quadros com pessoas com deficiência (PCDs). A reserva de vagas, progressiva conforme o número de funcionários das companhias, parte dos 2% e chega até 5% em empresas com mais de mil empregados. Para cumpri-la, as empresas apostam em parcerias, estudos internos e projetos de qualificação.
É o caso, por exemplo, da Artecola, que, a partir de um planejamento interno, passou de oito funcionários PCDs, em 2010, para os atuais 54, suficientes para preencher a cota. Obras de acessibilidade, espaços reservados no estacionamento e softwares diferenciados são algumas das novidades introduzidas. “Se você consegue identificar a função certa para colocar o trabalhador, mesmo que demore, você consegue encontrar as pessoas certas”, comenta Ronaldo Baptista, diretor de desenvolvimento organizacional da empresa, que mantém parcerias com Senai e Previdência Social para buscar candidatos às vagas.
As parcerias com entidades também fizeram com que a Bebecê Calçados, com sede em Três Coroas, atingisse uma situação pouco comum de superar a cota. Segundo a gerente de RH da companhia, Nelba Becker, o trabalho conjunto com a Apae da cidade fez com que a empresa chegasse aos atuais 39 funcionários PCDs, cinco a mais do que o obrigatório. “A empresa precisa se adaptar a essas pessoas, pois elas têm limitações. Não podemos simplesmente contratar e colocar em qualquer setor”, comenta ela. Nelba atribui a situação a uma preparação feita com todos os gestores e os grupos de trabalho da empresa.
FALTA DE QUALIFICAÇÃO É APONTADA POR COMPANHIAS COMO DIFICULDADE PARA CUMPRIR A COTA
Em pesquisa realizada com quase 3 mil profissionais de RH pela iSocial, consultoria especializada na inclusão de PCDs, 65% das empresas admitem ter resistência a contratar pessoas com deficiência. Entre os motivos, constam o preconceito contra elas, que 60% das companhias afirmam existir, e a falta de qualificação, que 82% dos profissionais afirmam ser mais difícil de encontrar em PCDs do que em pessoas sem deficiências.
Segundo a diretora de educação corporativa da seção gaúcha da Associação Brasileira de Recursos Humanos, Gabriela Pezzi, as companhias encontram carência maior do que o normal na formação das PCDs. “Elas têm muitas competências, mas, como qualquer pessoa, precisam ser capacitadas, encontrarem os seus pontos positivos”, afirma. “A gente encontra, infelizmente, pessoas com muita dificuldade em aspectos básicos, como comportamento profissional adequado, e até de entender que está dentro de um convívio social”, complementa.
Mesmo assim, as empresas têm a possibilidade de complementarem a formação profissional de PCDs. É o que faz a Unique, responsável pelas borrachas Tipler, com sede em São Leopoldo, que optou, em 2011, por uma parceria com o Senai do município para formar jovens aprendizes. Desde lá, seis dos seus atuais 29 funcionários com deficiência já passaram pelo processo, de seis meses de estudos e seis meses de estágio na empresa, que também cumpre a cota obrigatória.
“Às vezes demanda mais tempo para aprender, ele entra em uma área e vemos que a adaptação lá não é fácil e temos de buscar outro setor, por exemplo. A companhia tem de ter essa flexibilidade, esse jogo de cintura”, conta a gerente de RH da empresa, Eliana Pires, que classifica como “impressionantes” os desempenhos dos profissionais que passaram pelo processo, creditando parte do sucesso também à realização de cursos, treinamentos e palestras de sensibilização para todos os profissionais.
Aline Ghesla, analista de RH da Prat-K, indústria de móveis de Gramado que também atende à cota com seus quatro funcionários PCDs, ratifica a possibilidade de, mesmo notando um nível mais baixo de qualificação, as pessoas com deficiência conseguirem resultados até melhores do que o normal. “Às vezes nossos coordenadores até comentam que queriam mais pessoas com deficiência porque teriam produtividade maior, pensam que são mais comprometidas, precisam daquele trabalho”, comenta.
Fonte: Site Jornal do Comércio