Em um dos painéis mais aguardados da sétima edição do Fórum Internacional de Tecnologia da Informação do Banrisul, encerado nesta quinta-feira na Capital, o chamado dinheiro virtual, ou Bitcoin (BTC), esteve no foco das análises de um time de especialistas. A unidade monetária, criada em 2009, é gerada a partir de um programa de código aberto, independentemente de qualquer autoridade central. A grande sacada, a descentralização da emissão dos valores, que são utilizados em transações peer-to-peer — P2P (de pessoas para pessoa), funciona também como o desafio para o convencimento dos governos que já passaram a olhar com maior atenção para a tecnologia que pode revolucionar alguns modelos de negócios sem a geração de tributos.
Diferentemente de uma moeda física que possui lastro na economia de seu país de origem, os BTCs são lastreados pelo processamento em um banco de dados hospedado em uma rede P2P. Depois de gerada, a moeda é criptografada para evitar dupla utilização, pode ser salva em uma carteira virtual e utilizada em negociações pela internet com qualquer pessoa que possua uma conta Bitcoin.
Mesmo depois da falência da maior casa de câmbio em BTC do planeta, a japonesa MT. Gox, os rumos da moeda seguem em aberto. Na avaliação da conselheira do Bitcoin Foudation Elizabeth Ploshay, ainda existem muitos mitos a respeito da utilização dos BTCs. O primeiro é a associação da utilização da moeda virtual às atividades ilícitas. Segundo ela, no entanto, a tecnologia é segura, mesmo que não existam intermediários.
Entre os benefícios e aplicabilidades, Elizabeth cita o exemplo de um repasse de valores destinados ao financiamento de pesquisas em algum país da África. Em condições normais, a transação sofreria a incidência de tributos na ordem de 12%. Com os BTCs, não há encargos.
Além disso, ela afirma que existem mais de 2,5 bilhões de pessoas sem acesso a contas bancárias. Neste contexto, a popularização da internet e smartphones pode funcionar como um apelo à inclusão financeira em um universo de pessoas que permanecem à margem do sistema financeiro.
Na Argentina, por exemplo, a tentativa do governo de reter os dólares limitando os valores de compra em moeda norte-americana, principalmente, no e-commerce tem impulsionado a utilização de BTCs na América Latina. Conforme a especialista, a tecnologia destrava processos e promove a liberdade das negociações internacionais, independentemente das tentativas de cerceamento dos governos.
Essa é uma das razões para a disseminação do uso também no Brasil. De acordo Rodrigo Batista, presidente da Mercado Bitcoin Brasil, uma das três corretoras que operam BTCs no País, a moeda que era utilizada apenas como forma de especulação financeira começa a ganhar corpo em pequenos pagamentos às pessoas físicas no exterior. Segundo Batista, atualmente, 60 lojas de varejo aceitam BTCs no País, mas a perspectiva é que sejam mais de mil estabelecimentos antes do término deste ano.
O gerente de Tecnologia da PromnLogicalis, Lucas Pinz, acredita que a unidade de valor não representa uma ameaça ao sistema financeiro tradicional, mas ainda devem passar por alguns processos regulatórios globais. “Os BTCs vieram para ficar e devem conviver com as formas de pagamentos tradicionais, e não acabar com elas”, defende.
Fonte: Site Jornal do Comércio