Neste domingo, completam-se 30 anos desde o dia em que um comício reuniu 200 mil pessoas em Porto Alegre para protestar contra a ditadura e pedir eleições diretas em todo o País. O grande ato integrou uma mobilização planejada pelos defensores da volta da democracia no Brasil, que, desde o ano anterior, organizaram atos como aquele em outras cidades do Estado, como Santa Maria, Pelotas e Cachoeira do Sul, e do País – em São Paulo, o famoso comício da Praça da Sé, realizado no mesmo ano, em 25 de janeiro, chegou a reunir 1,5 milhão de pessoas.
Em 13 de abril de 1984, diante da prefeitura da Capital, na Praça Montevidéu, um palanque foi montado e, ao redor, se reuniram as milhares de pessoas que aderiram à causa. “Eram tantos na prefeitura que a fila de gente ia até a (avenida) Borges de Medeiros”, lembra o ex-governador Alceu Collares (PDT), que participou do ato.
Liderado pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o movimento das Diretas Já foi endossado por lideranças de todos os partidos que se opunham ao regime. Exemplo dessa pluralidade na constituição do grupo foi o próprio comício em Porto Alegre, que, liderado pelo então deputado federal José Fogaça, do PMDB, contou com a participação de lideranças de outras legendas, como o presidente do PT, Olívio Dutra, e Collares.
O pedetista Leonel Brizola - que governava o Rio de Janeiro naquele momento - veio ao Estado especialmente para participar do comício, assim como o futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, o líder do PMDB, Ulysses Guimarães, e o posteriormente presidente eleito Tancredo Neves.
Fogaça chegou a criar um comitê suprapartidário para organizar os atos sem restringir a participação de agentes de outros partidos. “A união do campo de centro-esquerda já vinha ocorrendo, de fato e de direito, desde o próprio dia de declaração da ditadura”, argumenta Collares. “Tinha muito material de todas as forças políticas. Claro que menos da Arena, que apoiava o regime”, acrescenta Olívio.
O senador Pedro Simon (PMDB) lembra que, “antes (do movimento das Diretas), cada um falava uma linguagem”, o que impedia a união dos partidos em torno da reconquista dos direitos perdidos após o regime militar. “Tinha 30 ou 40 reuniões por dia da oposição no Brasil. Mas, no outro dia, não acontecia nada.” Simon conta ainda que, antes da organização das Diretas, as pessoas olhavam as lideranças políticas com um semblante de angústia. “Queriam a mudança, mas não sabiam o caminho. Queriam derrubar a ditadura, e demos, com as Diretas, uma maneira prática de fazer, que não era matar este ou aquele ou fazer uma guerra civil”, analisa o decano.
Para Ibsen Pinheiro (PMDB), o regime militar – cuja instauração completou 50 anos em 2014 – começou a dar mostras mais claras de fenecimento devido à adesão do povo ao movimento das Diretas Já. Ele relata que o tamanho dos comícios impressionou os próprios organizadores, que não tinham expectativa de encontrar uma adesão tão maciça da sociedade. “A presença do povo foi uma surpresa. Ninguém esperava, nem os organizadores nem os que estavam contra. Era uma vontade que estava represada”, relata Ibsen. O deputado federal, que foi um dos defensores da criação do movimento das Diretas Já junto a Ulysses Guimarães, descreve o momento do comício como de “sensação de euforia e alegria”. “Era geralmente à noite, mas as pessoas começaram a chegar às 4h da tarde, em grupos, com bandeiras e tambores, cantando e dançando”, recorda-se Ibsen.
O ex-deputado acredita que a satisfação do povo com o movimento “liquidou o regime”. “Foi uma proposta política que acertou na veia do sentimento da população. Não foi mérito da organização, foi uma proposta que acertou na hora certa o sentimento certo das pessoas, e isso é raro”, avalia Ibsen, enfatizando que a população, e não somente as lideranças políticas, forçaram a mudança. “Nenhum movimento teve tanta horizontalidade, porque todo o País apoiou, e profundidade, porque abrangeu todos os segmentos sociais.”
Outro aspecto que favoreceu a reunião de tantas pessoas para um protesto foi a perda de poder do regime militar: a repressão já não assustava tanto. Olívio enfatiza que um cortejo de batedores da Brigada Militar abriu caminho para a passagem de Lula, que era esperado no ato. “Não havia medo (da repressão), porque o regime não tinha mais esse poder.”
Na avaliação de Olívio, o clima de otimismo crescia com os comícios em diversas cidades: “Tinha um agito muito grande, gente que vinha de municípios do Interior. Havia muita passeata, caminhada, as pessoas faziam camisetas, faixas, desenhos. Tudo muito criativo. Era uma coisa espontânea, um clima realmente empolgante”.
As Diretas Já visavam a pressionar a aprovação da emenda constitucional Dante de Oliveira, deputado do Mato Grosso que criou o texto para haver eleições diretas. A emenda foi rejeitada pela maioria a favor da ditadura no Congresso, e o presidente João Figueiredo postergou as eleições para 1988, ocorrendo em 1985 a eleição indireta de Tancredo Neves.
Fonte: Site Jornal do Comércio