A educação deve ser a principal pauta a ser tratada para elevar a competitividade de nossas empresas e a economia do país. O desempenho do Brasil, comparado ao de outros países, é, simplesmente, vergonhoso. No ranking divulgado em maio pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) o país ficou na 60ª posição entre 76 países avaliados.
A educação hoje pode ser vista com quatro agentes fundamentais para o seu desenvolvimento: o estado, as escolas (universidades, faculdades, colégios..), as empresas e o indivíduo. O estado, nas últimas décadas, demonstrou uma capacidade limitada de alterar o contexto social, o escopo de suas ações é amplo e os resultados são lentos. Enquanto isso, instituições de ensino, de forma geral, ainda operam em um sistema educacional atrasado e sem alinhamento com a realidade – de competição global. Em recente entrevista a BBC Brasil, Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna, enfatizou “o modelo de escola atual parou no século 19”.
Por outro lado, muitas empresas trabalharam, por muitos anos, com um foco excessivo na produção em massa, no controle das atividades e nos aspectos tangíveis, sem a devida atenção e capacitação de seus funcionários - os verdadeiros guardiões do conhecimento. Contudo, no início da década de 90 quando Kaplan e Norton apresentaram o balanced scorecard (BSC), os autores destacaram o ‘aprendizado e crescimento’ como um dos pilares fundamentais para a implementação e a retroalimentação da estratégica. O BSC contribuiu para a valorização do conhecimento, o aprendizado e o valor do capital intelectual na gestão das empresas. O mesmo período também foi marco para a gestão e valorização do conhecimento nas organizações nos Estados Unidos por outro aspecto, segundo Stewart (1998) foi a primeira vez que os investimentos em tecnologia da informação ultrapassaram os gastos com equipamentos tipicamente industriais, conforme levantamento feito por meio dos investimentos registrados pela Agência de Análise Econômica do Departamento de Comércio Norte Americano, no período de 1965 – 1991.
Não é por acaso que muitas empresas que apresentaram um comportamento diferente se destacaram ao longo dos anos. Apple e Google hoje são organizações reconhecidas pelo ambiente e pelo tratamento dedicado aos seus colaboradores. Reconhecer o valor das pessoas é, acima de tudo, fundamental para o desenvolvimento das economias; e a educação é uma forma excepcional de valorizar as pessoas.
Em um contexto de competição global, a forma como as empresas lidam com os fatores externos - em que elas possuem pouca influência - são decisivos para determinar o sucesso de suas companhias. Mesmo com a aparente atuação limitada, as organizações buscam suas próprias soluções para combater contextos desfavoráveis e elevar a competitividade em seus mercados. No Brasil este cenário social é semelhante para todas as empresas com algumas variações conforme a região geográfica e as especificações das necessidades de capital humano das organizações.
As empresas brasileiras e internacionais instaladas no Brasil enfrentam este contexto social de diversas maneiras. Recentemente, muitas empresas de médio e de grande porte implementaram modelos de universidades corporativas. Esta é uma das iniciativas desenvolvidas para enfrentar a educação no Brasil. As empresas estão assumindo e oferecendo educação aos seus colaboradores com objetivo de capacitar seu quadro de funcionários e aumentar sua competitividade. O foco de trabalho das universidades corporativas, evidentemente, é definido conforme as necessidades mercadológicas e internas das empresas. Mas é, essencialmente, um pilar fundamental na busca da visão, missão e objetivos estratégicos da organização e, deve estar de acordo com os seus valores e princípios.
Por último, o indivíduo, como quarto agente fundamental, é decisivo, pois é ele o verdadeiro responsável pelo seu próprio desenvolvimento. Em minhas atividades profissionais e acadêmicas, já tive o prazer de conhecer grandes exemplos de acadêmicos e de empreendedores com e sem escolaridade. Os exemplos mais marcantes e que vem, facilmente, em minha memória são de pessoas preocupadas e dedicadas com a sua própria educação e de seus colaboradores. Os profissionais com baixa escolaridade revelam uma alta capacidade de aprendizado empírico, conforme suas experiências e práticas profissionais. Os estudiosos de destaque apresentam um sistema robusto e bem definido de aprendizado. Cada um do seu jeito e conforme seu perfil. Todos eles encontraram uma forma produtiva de aprendizado seja por meio de leituras técnicas, monitoramento de notícias mercadológicas, produção de artigos, compartilhamento e troca de conhecimento com colegas, dentre outras. Há muita informação disponível e o indivíduo deve ser agente ativo na busca e na escolha do que melhor responde às suas necessidades.
Certamente, nem todos têm as mesmas condições em um país com enormes desigualdades. Por isso, há a necessidade de integração e sinergia entre os quatros agentes para a recuperação da educação. As empresas de sucesso, certamente, desenvolverão mais e mais iniciativas para melhorar a qualidade de seu capital intelectual. Ao estado cabe a definição de seu papel e seu plano de ação para estimular e criar o ambiente propício para tal crescimento social, por meio de ações de médio e de longo prazo. As instituições de ensino, muitas vezes, conservadoras, estão sentindo os efeitos desse cenário turbulento. Cursos incompany são cada vez mais demandados. Hoje, instituições que não estão atentas e não possuem clara relação com a sociedade estão correndo sérios riscos, pois perdem seu valor social. As instituições voltadas ao mercado de trabalho possuem relações estabelecidas com empresas e entidades de classe para oferecer ensino de qualidade aos públicos envolvidos.
A educação no Brasil deve ser mais que um discurso político e uma promessa eleitoral. Esta pauta é coletiva e deve ser tratada como prioridade. Na era da informação, os guardiões do conhecimento – as pessoas – são e serão ainda mais fundamentais para o sucesso das instituições.
HUG – Henrique Ullmann Girardi