Há pouco mais de um mês, o caso das injúrias raciais sofridas pelo goleiro Aranha disseminou uma ampla discussão sobre o racismo no futebol e na sociedade brasileira. Passado algum tempo do ocorrido, é oportuno retomar o fato ponderando questões que nos permitam refletir sobre a sociedade atual. Mais do que um ato racista (já suficientemente abjeto), o que tal episódio desvela é a constância dos processos de anulação da alteridade no universo do futebol. Se por alteridade compreendermos o fato de que o “eu” (individual ou coletivo) sempre convive e interage com os “outros”, a anulação desse processo corresponde às ações que negam a possibilidade de coexistência mútua com esses “outros” - sejam eles definidos por critérios étnicos ou de opção sexual.
No caso do futebol, o mecanismo acionado de modo recorrente na anulação da alteridade vincula-se aos insultos verbais baseados em categorias animais, como “macaco”, “veado”, “porco”, aplicadas aos rivais. Em seus sentidos mais elementares, tais insultos operam a partir de uma negação da humanidade dos “diferentes”: retirar a condição de humano através da “adjetivação animal” significa estabelecer distinções hierárquicas entre indivíduos e grupos, cujos resultados não raramente resultam em práticas de violência ou de manutenção dos estereótipos sociais. Ocorre que estereótipos são pródigos na tarefa de reproduzir as relações de poder que permeiam nossa sociedade. O futebol está cheio de exemplos que confirmam essa tese, demonstrando que insultos aparentemente “ingênuos” e intrínsecos ao “folclore” esportivo fomentam atitudes discriminatórias.
É possível contrariar essas ideias afirmando-se que o campo esportivo é permeado pela passionalidade, a qual se expressa em noções como o “fanatismo clubístico”. Contudo, é altamente coerente pensar que práticas como o futebol se constituem como metáforas do contexto cultural em que se inserem, evidenciando traços característicos das sociedades nas quais se desenvolvem. Afinal de contas, as competições futebolísticas não são apenas afetadas pela “irracionalidade” dos torcedores “fanáticos”. Ao contrário, são estruturadas com base nas mesmas lógicas concorrenciais que organizam a sociedade capitalista. O que parece relevante é que é justamente essa lógica concorrencial exacerbada que dificulta os processos de aceitação do “outro”, na maioria das vezes visto como inimigo na luta por recursos materiais ou simbólicos.
Ter em conta essas complexidades é fundamental para compreender não apenas os condenáveis fatos que emergem nos estádios brasileiros, mas também para perceber diferentes formas de discriminação que assolam a sociedade contemporânea. O que ocorre no campo de futebol pode ser visto como um espelho do social, e as possíveis alternativas a essas realidades demandam esforços conjuntos através dos quais a negociação das alteridades seja incentivada. É isso que geralmente chamamos de “cultura de paz”, tão necessária atualmente, seja nos estádios ou em outros setores do convívio social.
Rodrigo Leistner - Antropólogo, Doutor em Ciências Sociais - rodrigoless@yahoo.com.br