O acidente que vitimou o então candidato à presidência da república Eduardo Campos, ocorrido há poucos dias, provocou mais do que uma comoção popular associada às características trágicas do episódio. Conforme temos acompanhado na imprensa diária, a condução de Marina Silva à liderança da chapa encabeçada pelo PSB na corrida ao Planalto, em substituição a Campos, gerou dúvidas incontornáveis e uma completa imprecisão a respeito dos possíveis resultados da eleição presidencial. Isso porque, em pouquíssimos dias, as expectativas de voto na candidatura do PSB subiram de 8,2% (ainda com Eduardo Campos na chapa) para estrondosos 29% (com a indicação de Marina para a candidatura). E mais: conforme a pesquisa realizada pelo Ibope, no último dia 26 de agosto, Marina seria a única candidata capaz de derrotar Dilma Rousseff no segundo turno, com uma expectativa de votos contundente (45% a 36%). As incertezas que emergem nesse quadro são diversas: haveria influência emocional oriunda da morte de Campos nesses resultados? Como explicar que num período de uma semana milhões de brasileiros alteraram suas intenções de voto? Existiriam chances reais do programa político do PT ser derrotado, mesmo constatando-se sua aprovação popular?
Decerto, pairam resquícios da tragédia de Eduardo Campos nessas pesquisas. Entretanto, sabe-se que os episódios trágicos, embora amplamente explorados pela mídia, tendem a ser rapidamente ultrapassados pela ocorrência de novos fatos, que são fundamentais para a construção da agenda midiática. Assim, se de fato a morte do ex-candidato pode capitalizar votos a partir de uma espécie de sensibilização popular, tal fator deve paulatinamente perder influência no período que segue. Além disso, deve-se avaliar que a atual candidata do PSB detinha capital político considerável em pesquisas realizadas ainda antes da definição de Campos como líder de chapa, quando apresentou índices próximos aos 21%.
Isso sugere que a resposta aos questionamentos emergentes, especialmente aqueles que se ligam à expressividade de Marina nas pesquisas, deva partir de uma análise sobre a forma como a ex-Senadora parece cooptar seu capital político. Sugiro que essa cooptação decorra da adequação de seu discurso àquilo que poderíamos chamar de tendências contemporâneas da cultura política. Conforme as ciências sociais, tais tendências se conectam a uma imprecisão do próprio sentido do “político” na contemporaneidade, cujas complexidades se originam da ruptura das grandes ideologias, da indefinição sobre o que configura a “direita” e “esquerda” ou os projetos liberais e social-democratas. O que constituiria essa espécie de “pós-modernidade” em política seria a decadência dos grandes projetos e uma gradual perda das referências ideológicas até então consolidadas. Fatores desta ordem são perceptíveis na cultura política brasileira. Como exemplos, podem ser citadas as complexas coligações partidárias, nas quais os antigos adversários, plenamente identificados no passado, promovem agora alianças ocasionais, fortuitas e efêmeras. O mesmo é observado nos movimentos sociais do país, atores fundamentais do processo político, cujos eixos de reivindicação não mais contemplam linhas políticas claras e bem definidas. Nesse último caso, o exemplo das manifestações de junho de 2013 no Brasil é sintomático, constatando-se que aquelas mobilizações detinham pautas diversas, matizadas e pouco identificáveis.
É justamente a adoção de um discurso adequado a essa “cultura das imprecisões” o que configura o trunfo de Marina. Ao rejeitar a polarização direita /esquerda, que no Brasil tem se expressado no confronto PT versus PSDB, a candidata visa oferecer uma solução alternativa àqueles que, de um modo ou de outro, encontram-se perplexos diante da condição política atual. Seu discurso visa projetar adversários como representantes de ideologias fracassadas, além de esquivar-se à adoção de uma linha política clara – o que a levaria a reeditar ideologias não condizentes com a expectativa daqueles que se opõem aos projetos disponíveis. Uma vez que a cultura política atual comporta a indeterminação das linhas ideológicas, recusar o acionamento das mesmas pode propiciar a sensação de um suposto “novo caminho” político. Isso explica os motivos pelos quais o eleitorado de Marina Silva comporta segmentos tão divergentes, ora conservadores e de tendência liberal, caso de grupos evangélicos, ora revolucionários e de tendências socialistas, caso dos muitos participantes dos movimentos de junho de 2013 que se identificam com a candidata.
Por outro lado, se a constatação da conexão entre o discurso de Marina Silva com certas tendências da cultura política contemporânea nos ajuda a compreender a evidência da ex-Senadora nesse pleito, o mesmo raciocínio não permite projeções quanto ao resultado das eleições. Ao contrário, afirmar que vivemos num período de incertezas políticas seria contraditório com qualquer especulação sobre a conquista do Planalto. Isso não significa que os atuais processos eleitorais não contenham certas “tendências”, e nesse caso, as três eleições consecutivas do PT para a presidência não deixam de demonstrar a aprovação (e continuidade) de uma linha política determinada, cujos escopos, ligados à redistribuição de renda, têm encontrado ressonância nos segmentos populares. Contudo, ao detectar a emergência de uma cultura política da imprecisão estou apenas salientando que, cada vez mais, os prognósticos políticos serão complexos. A evidência de Marina Silva no campo político nos últimos dias parece abalizar esse argumento. E nessa perspectiva, se há algumas semanas tínhamos poucas dúvidas sobre o processo decisório no Brasil, a morte de Eduardo Campos acabou com qualquer pretensão de prognósticos certeiros. A partir de então, a especulação sobre o futuro presidente do Brasil passou a ser assunto para os místicos.
Rodrigo Leistner
Antropólogo, Doutor em Ciências Sociais
rodrigoless@yahoo.com.br